Criacionistas, agora eles estão vindo pegar suas crianças
Fonte: Contra-Informação
Autor: Richard Dawkins – do livro “O Maior Espetáculo da Terra”
Traduzido e indicado por: Vinícius Morais Simões no Twitter
As pessoas que rejeitam a teoria da evolução deveriam ser colocadas lado a lado com aquelas que negam o holocausto, declara o autor do novo e controverso livro.
Imagine que você é um professor de História Romana ou de Latim, ansioso para transmitir o seu entusiasmo pela Antiguidade Clássica – pelas elegias de Ovídio e pelas odes de Horácio, pela vigorosa economia da gramática latina como exibida na oratória de Cícero, as belezas estratégicas das Guerras Púnicas, o gênio estratégico de Júlio César e os excessos voluptuosos dos últimos imperadores.
Este seria um grande empreendimento que tomaria muito tempo, concentração e dedicação. Ainda assim você encontraria o seu tempo continuamente prejudicado, a atenção da sua classe distraída, pelos latidos de uma matilha de ignoramuses (que como professor de latim você entenderia que seria o jeito certo de declinar ignorami) [1] que, com apoio político e especialmente financeiro, espalham aos quatro ventos que os romanos nunca existiram. Que nunca houve um Império Romano. Que o mundo inteiro veio a existir apenas um pouco antes do tempo de que temos memória. Que o espanhol, o italiano, o francês, o português, o catalão, o ocittânico e o romanche, todas essas línguas e os dialetos que as constituem surgiram espontânea e separadamente, e que nada devem a um ancestral chamado latim.
Ao invés de devotar toda a sua atenção para a nobre vocação de ser um erudito e professor, você é obrigado a investir parte do seu tempo e energia para a retrógrada defesa do pressuposto de que os romanos realmente existiram: uma defesa contra a exibição de um preconceito ignóbil que poderia fazê-lo chorar caso você não estivesse tão ocupado lutando contra ele.
“Hoje em dia não há o que se debater. A Evolução é um fato e, de uma perspectiva cristã, um dos maiores trabalhos de Deus”
Se a minha analogia sobre o Professor de Latim lhe pareceu por demais irreal, aqui está um exemplo mais realista. Imagine-se um professor de história mais recente, e que as suas lições sobre a Europa do Século XX são boicotadas, impedidas ou interrompidas de outra forma por grupos bem organizados e bem financiados assim como grupos políticos musculosos de negadores do holocausto. Diferente dos meus improváveis negadores do Império Romano, os negadores do Holocausto realmente existem. Eles se expõem razoavelmente, são superficialmente preparados e adeptos do aprendizado aparente[2]. Eles recebem apoio do presidente de pelo menos um grande estado atual, e contam com o apoio de pelo menos um bispo da Igreja Católica. Imagine que, como professor de História da Europa, você é continuamente encarado com exigências beligerantes tais como a de “ensinar a controvérsia” e a dar “tempos iguais” para a “teoria alternativa” de que o Holocausto nunca aconteceu e que foi inventado por um bando de farsários sionistas.
Os adeptos da moda do relativismo intelectual seguem o rastro afirmando que não existe verdade absoluta: que acreditar que o Holocausto aconteceu ou não é uma questão de crença pessoal, que ambos os pontos de vista são igualmente válidos e, portanto, devem ser igualmente “respeitados”.
O fardo que muitos professores de ciência têm que carregar hoje em dia não é necessariamente mais leve. Quando eles tentam expor o princípio fundamental e norteador da biologia, quando tentam honestamente colocar o mundo dos seres vivos em seu contexto histórico – que é o contexto da evolução; quando exploram e explicam a verdadeira natureza da própria vida, eles são assolados e impedidos, importunados e achincalhados, e até ameaçados com a perda de seus empregos. No mínimo têm o seu tempo desperdiçado todas as vezes. É comum eles receberem cartas ameaçadoras de pais e terem de suportar os gracejos sarcásticos assim como as atitudes resilientes dos seus alunos vítimas de lavagem cerebral. Eles são providos com o fornecimento de livros-texto aprovados pelo Estado nos quais a palavra “evolução” foi sistematicamente expurgada, ou esvaziadas em “mudança através do tempo”. Há um tempo atrás nós nos sentimos tentados a rir um bocado disso como se fosse um fenômeno peculiarmente estadunidense. Agora os professores da Grã Bretanha e da Europa enfrentam os mesmos problemas, em parte por causa da influência estadunidense, mas mais particularmente por causa do crescimento da presença islâmica nas salas de aula – em cumplicidade com o comprometimento oficial com a “diversidade cultural” e o terror de ser visto como racista.
Frequente e pertinentemente tem se afirmado por aí que padres e teólogos não têm desavenças com a teoria da evolução e que, em muitos casos, efetivamente apóiam cientistas que tratam desse assunto. Isso geralmente é verdade, como tive a oportunidade de testemunhar em uma experiência positiva de colaboração com o antigo Bispo de Oxford, agora conhecido como Lord Harries, em duas diferentes ocasiões. Em 2004 nós escrevemos um artigo conjunto no The Sunday Times cujas palavras de conclusão foram: “Hoje em dia não há o que se debater. A Evolução é um fato e, de uma perspectiva cristã, um dos maiores trabalhos de Deus”. A última sentença foi escrita por Richard Harries, mas nós concordamos a respeito de todo o resto do artigo. Dois anos antes, o Bispo Harries e eu tínhamos redigido uma carta conjunto endereçada ao Primeiro Ministro da Inglaterra, Tony Blair.
“Mais de 40% dos americanos não aceitam a afirmação de que os humanos podem ter evoluído a partir de outros animais”
[Na referida carta, cientistas e religiosos eminentes, incluindo sete bispos, expressaram suas preocupações relativas ao ensino da evolução e o seu alarme relativo à exposição desse ensino como uma “questão de fé” na Universidade Tecnológica da Cidade de Emmanuel, em Gateshead.] O Bispo Harries e eu elaboramos essa carta às pressas. Se não me falha a memória, os signatários da carta constituíam 100% das pessoas às quais pedimos apoio. Não houve desacordo tanto por parte dos cientistas quanto dos bispos.
O Arcebispo de Canterbury não possui desacordos com a evolução, assim como o Papa também não possui (tirando ou pondo a estranha hesitação a respeito do instante paleológico onde a alma humana teria sido inserida), sequer possuem os educados padres e professores de teologia. O Maior Espetáculo da Terra é um livro que trata da evidência positiva de que a evolução é um fato. Não tem a pretensão de ser um livro anti-religião. Eu já fiz isso, essa é a estampa de outra camiseta, e não é a hora nem o lugar para vesti-la novamente. Os Bispos e Teólogos que atenderam ao chamado das evidências da evolução na verdade desistiram de lutar contra elas. Alguns deles podem fazer isso de maneira relutante, alguns, como Richard Harries, entusiasticamente, mas todos exceto os lamentavelmente desinformados são obrigados a aceitar a existência da evolução.
Eles podem pensar que Deus tem sua parte nisso ao dar o pontapé inicial, e talvez tenha retirado sua mão ao invés de guiar seu progresso futuro. Eles provavelmente pensam que em primeiro lugar Deus criou o universo e, depois disso, solenemente celebrou o seu nascimento instituindo um conjunto de leis e constantes físicas devidamente calculadas para preencher a algum propósito inescrutável no qual nós eventualmente representamos algum papel.
O que nós não devemos fazer é complacentemente assumir que, por que bispos e teólogos devidamente educados aceitam a teoria da evolução, assim o fazem suas congregações. Inclusive amplas pesquisas de opinião provam justamente o contrário. Mais de 40% dos americanos não aceitam a afirmação de que os humanos podem ter evoluído a partir de outros animais e pensam que nós – e por conseqüência toda a vida – fomos criados por Deus dentro dos últimos 10.000 anos. Essa estatística não é tão alta na Grã Bretanha, mas ainda assim é preocupantemente alta. E deveria ser tão preocupante às igrejas quanto o é para cientistas. Este livro é simplesmente necessário. Eu deveria usar o nome “negacionistas” [3] para me referir às pessoas que negam a evolução: aqueles que acreditam que a idade do mundo pode ser medida em apenas milhares de anos, ao invés de bilhões de anos, assim como quem acredita que os humanos viveram à mesma época dos dinossauros.
Para enfatizar, essas pessoas constituem mais de 40% da população estadunidense. A estatística equivalente possui índices maiores em alguns países, menores em outros, mas 40% é uma boa média e eu posso porventura me referir a esses negacionistas como membros do “time dos quarenta por cento”.
“Pense nisso, Bispo. Seja cauteloso, Vigário”
Voltando aos iluminados bispos e teólogos, seria interessante se eles também se esforçassem um pouco para combater todas as afirmações nonsense e pseudo-científicas que eles mesmos reprovam. Todos os bons religiosos, ao mesmo tempo em que concordam que a teoria da evolução é verdadeira e que Adão e Eva na verdade nunca existiram, alegremente vão aos seus púlpitos realizar alguma exposição moral ou intelectual a respeito das histórias de Adão e Eva em seus sermões mas se esquecem de mencionar, vejam vocês, que Adão e Eva na verdade nunca existiram! Quando são desafiados, eles irão protestar dizendo que a passagem possui uma conotação puramente “simbólica”, talvez relativa a um “pecado original”, ou relativa às “virtudes da inocência”. Eles poderiam timidamente acrescentar que, obviamente, nenhuma pessoa seria tão tola a ponto de interpretar literalmente suas palavras. Mas será que suas congregações sabem disso? Como pode a pessoa do banco da igreja, ou do tapete de orações saber quais partes das escrituras ela deve interpretar literalmente e quais deve interpretar metaforicamente? Será que é realmente fácil para um fiel adivinhar isso? Em muitos casos a resposta é simplesmente não, e qualquer pessoa pode ser perdoada por se sentir confusa quanto a isso.
Pense nisso, Bispo. Seja cauteloso, Vigário. Vocês estão brincando com dinamite, fazendo brincadeiras com um mal entendido que está prestes a se revelar – algumas pessoas diriam que obrigatoriamente iriam acontecer a não ser que fossem previamente impedidas. Não deveriam vocês tomarem maiores cuidados, ao falar em público, para o seu sim ser entendido como sim e o seu não como não? Para não cair em condenação, não deveriam vocês mudar suas trajetórias para esclarecer o já amplamente divulgado mal entendido e emprestar apoio entusiástico e ativo aos cientistas e professores de ciências? Os próprios negacionistas fazem parte do grupo de pessoas que estou tentando alcançar. Mas, talvez mais importante, eu tenho por objetivo dar instrumentos a aqueles que não são mas conhecem negacionistas – talvez membros da sua própria família ou igreja – e que se encontram insuficientemente preparados para discutir a questão.
A Evolução das Espécies é um fato. Além do benefício da dúvida razoável, além do benefício da dúvida séria, além da dúvida sã, inteligente e informada a evolução é um fato. A evidência para a evolução é pelo menos tão forte quanto as evidências para o Holocausto, mesmo que consideremos testemunhas oculares do Holocausto. É uma verdade cristalina que nós somos primos dos chimpanzés, primos algo mais distantes dos macacos, primos ainda mais distantes dos aardvarks[4] e peixes-boi, e primos ainda mais distantes das bananas e dos nabos … continue a lista como desejar. Isso não precisava ser verdade. Não é auto evidente, tautológica ou obviamente verdadeiro, e houve um tempo onde a maioria das pessoas, mesmo as pessoas mais educadas, pensavam que não era. Isso não precisava ser verdade, mas é. Nós sabemos disso por que um rio transbordante de evidências assim o diz. A Evolução é um fato, e o [meu] livro irá demonstrá-lo. Nenhum cientista que tenha o mínimo de reputação contesta essa afirmação, e nenhum leitor que faça uma leitura imparcial irá fechar o livro duvidando dela.
“A evolução está dentro de nós, ao nosso redor, e seus trabalhos estão gravados nas pedras das eras passadas”
Por que então falamos da “Teoria Darwiniana da Evolução”, dando, portanto, um conforto espúrio para a persuasão criacionista – como os negacionistas, ou membros do “time dos quarenta por cento” – que pensam que a palavra “teoria” é uma concessão, entregando lhes algum tipo de presente ou vitória? A evolução é uma teoria da mesma forma que o heliocentrismo o é. Em nenhum dos casos a palavra “apenas” deveria ser usada como na sentença “apenas uma teoria”. Para aqueles que afirmam que a evolução nunca foi “provada” é bom saber que a prova é uma noção que os próprios cientistas tratam com desconfiança.
Inclusive alguns filósofos influentes nos dizem que na ciência não podemos provar coisa alguma.
Matemáticos podem provar algumas coisas – de acordo com uma visão bastante estrita, eles são as únicas pessoas que podem – mas o melhor que cientistas podem fazer é fracassarem na tentativa de negar hipóteses enquanto chamam a atenção para o fato de quão arduamente tentaram fazer isso. Até a não disputada teoria de que a Lua é menor do que o Sol não pode, para a satisfação de certos tipos de filósofos, ser provada da mesma forma que, por exemplo, o Teorema Pitagórico pode ser provado. Mas o acréscimo massivo de evidências apóiam a teoria tão bem que negar a ela o status de “fato científico” parece ridículo a todas as pessoas com exceção dos pedantes. O mesmo é verdade para a evolução. A evolução é um fato da mesma forma que é um fato que Paris se situa no hemisfério norte. Apesar das navalhas lógicas[5] dominarem a cidade, algumas teorias estão além da dúvida sensível, e nós as chamamos de fatos. Quanto mais enérgica e meticulosamente você tentar refutar uma teoria, se ela sobrevive ao assalto, mais ela se aproxima daquilo que o senso comum alegremente chama de fato.
Nós somos como detetives que chegam à cena do crime momentos depois do mesmo ter sido cometido. As ações do assassino simplesmente se perderam no passado.
O detetive não tem esperança alguma de testemunhar o verdadeiro crime com seus próprios olhos. O que o detetive realmente tem são vestígios que perduram, e é um bom negócio acreditar nesses vestígios. Existem as pegadas, as digitais (e hoje em dia também as assinaturas genéticas), as marcas de sangue, cartas, diários. O mundo é exatamente da forma que deveria ser caso essa e essa história, e não aquela e aquela, tivessem nos trazido até o presente.
A evolução é um fato inescapável, e nós deveríamos celebrar o seu surpreendente poder, simplicidade e beleza. A evolução está dentro de nós, ao nosso redor, e seus trabalhos estão gravados nas pedras das eras passadas. Dado isso, em muitos casos, nós não vivemos o suficiente para assistir à evolução acontecendo diante de nossos olhos, nós devemos revisitar a metáfora do detetive que chega à cena do crime depois do ocorrido e tirando conclusões. Os instrumentos de análise que levam os cientistas a concluir que a evolução é um fato são de longe mais numerosos, mais convincentes, mais incontroversos do que o relato de qualquer testemunha ocular que já foi usado em qualquer tribunal, em qualquer século, para a comprovação de culpa em qualquer crime. Provas além da dúvida razoável? Dúvida razoável? Esse é o maior eufemismo de todos os tempos.
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[1] Que significa ignorantes.
[2] No original adept at seeming learned
[3] Como o vocábulo já existente relativo a pessoas que negam determinados fatos históricos N. do T.
[4] O aardvark (nome científico Orycteropus afer) é um mamífero africano, único representante vivo da ordem Tubulidendata, da família Orycteropodidae e do seu gênero. Fonte: Wikipédia.
[5] Uma passagem retirada de algum livro do poeta inglês W. B. Yeats que aparece no original como logic choppers. Na versão original do texto o autor declara não ser essa uma das passagens prediletas de Yeats mas ainda assim apropriada à situação. N do T.



















A evolução é um fato inescapável, e nós deveríamos celebrar o seu surpreendente poder, simplicidade e beleza. A evolução está dentro de nós, ao nosso redor, e seus trabalhos estão gravados nas pedras das eras passadas.
E os seus Obtusos Ignorantes Reclamantes deveriam estar gravados em lapides monumentais para servir de exemplo de Mediocridade e Ignorância que estimulam o Ódio, Preconceito e a Violência.
Negar a Seleçao Natural e a Evolução das Espécies e Negar a Humanidade seus Direitos e Deveres enquanto Espécie Adaptada, Culturalmente Esclarecida e Detentora de Inteligencia, e um Crime que deve ser respondido com o Expurgo Social e a Morte Física, bem Dilacerante, porque estes Dementes nos Insultam a Inteligencia com seu Reacionarismo Fascista.
Lamentável, Lamentável e Lamentável!
Fico muito feliz que o meu artigo tenha sido reproduzido em um meio tão honrado, no sentido de prestar um verdadeiro serviço ao promover o humanismo secular como resposta às questões da humanidade. Inclusive confesso que passei a conhecer a LiHS há pouco tempo, através do Orkut e, aparentemente, será essa a organização à qual irei dar minha contribuição. Sou a favor da laicidade e do secularismo, enquanto agenda política e, nesse sentido, acredito que essa é a posição mais acertada, em contraposição a certas organizações que se limitam a querer realizar a “inclusão” dos ateus na sociedade.
Se acharem interessante, podem ficar à vontade para reproduzir também a tradução dos outros dois capítulos, a saber o “A Verdade que os cães revelam acerca da evolução” (http://a.307.to/stats/u/cSO) e o “O Evolucionista Irado” (http://307.to/cZd) que seriam, respectivamente, retirados do segundo e do terceiro capítulos do mesmo livro.
Costumo dizer que criacionistas pensam em 3 dimensões, enquanto evolucionistas pensam em 4 dimensões.
Eles parecem ignorar completamente o eixo Tempo, criando explicações rocambolescas com lógica circular.
O “Relógio no deserto” por exemplo, alguém cognitivo o achou, e segundo a lógica criacionista, o relógio passou a existir no momento que foi achado. Ele não é resultado de acúmulo de metais durante bilhões de anos, ele simplesmente apareceu para quem o achou naquele instante, nunca vindo a existir antes, ou em qualquer outro lugar além do deserto onde o observador o encontrou.
Pensamento totalmente subjetivo, infantil e patético.
Dawkins ruleia!
O livro dele não vai sair com aquela introdução criacionista de 50 páginas também?
Gostei da foto que ilustra o texto, com mais uma das teorias para o sumiço dos dinossauros na Bíblia.