Amazônia cobiçada

Autor: Marcelo Druyan

 

OnçaA BELEZA DE HELENA

“Decerto que Aquiles não tem bile no coração, ele deixa fazer de tudo”.

(Canto II da Ilíada, de Homero).


Gregos agradam troianos?

Por deboche, eu inventei um termo: “explicação cavalo de tróia”. Uma explicação cavalo de tróia traz embutida uma outra explicação, uma explicação que se esconde. A primeira, visível no discurso de quem explica, agrada a troianos. Mas a outra, escondida e calada na noite, agrada a gregos e destrói troianos.

A frase “a Amazônia é o pulmão do mundo” é uma explicação cavalo de tróia.

Esta explicação é usada, mundo afora, para justificar a preocupação da aldeia global com a aldeia dos índios e para dizer que a Amazônia tem importância vital para o ecossistema do planeta. Tão vital, que a Amazônia não é um problema apenas dos brasileiros, mas um problema de “toda humanidade”, assim, sem cerimônia e sem o artigo “a” entre ‘toda’ e ‘humanidade’, para dizer, com ênfase, que é tanto um problema de todo o gênero humano, quanto um problema de toda benevolência, clemência e compaixão.

 

“O cavalo de Tróia está sendo puxado aos poucos, pelo mutirão do nacionalismo”

Quando o mundo diz que a Amazônia (¹) é o pulmão do mundo, ele quer dizer que a Amazônia produz o oxigênio do mundo. O fim da Amazônia é o sufocar da humanidade. E então nós, brasileiros, no exercício de nosso imenso complexo de inferioridade e de nossa mesquinha mania de grandeza, sentimos um patriótico orgulho ao ouvir esta frase. Ela nos faz acreditar, durante o ressoar de vinte letras, que não somos aquilo que sabemos que somos; mas que nos tornamos aquilo que sempre sonhamos ser. Durante algumas sílabas, somos importantes cidadãos do mundo, somos os donos (do pulmão) do mundo!

O cavalo de Tróia está sendo puxado aos poucos, pelo mutirão do nacionalismo, para dentro de nossa cidadela. Felizmente, há pessoas que também enxergam os gregos do lado de dentro, enquanto outras só enxergam os troianos do lado de fora. Felizmente, nem sempre é preciso trombar em um cavalo, para nos darmos conta que existe um à frente, principalmente quando se trata de um cavalo gigante. 

 

Quem é o cérebro do mundo?  

Até hoje me lembro da luta entre Maguila e Evander Holyfield, no Caesar Park de Las Vegas. Nosso nordestino, sobrevivente, finalmente chegara aos píncaros da fama. Ele enfrentava o número 2 do ranking mundial de boxe. Entretanto, naquela noite iluminada e chique, Holyfield não era Holyfield. Para nós, era só um obstáculo entre o lutador macunaíma e Mike Tyson, o número 1. Mas se Tyson era o líder, the number one; Maguila era o escolhido, the one. Maguila fora escolhido por Deus para resgatar nossa auto-estima e derrubar, a base de socos, o muro da exclusão social.

Mas a nossa ilusão caiu, sem piedade de nós, no primeiro minuto do segundo round. Maguila foi derrubado com um soco que lhe roubou até a dignidade de cair. Sua silhueta, no chão, não era a de um lutador nocauteado, mas a de um homem atropelado, um corpo desarrumado por desatropelo. Seu braço esquerdo ficou curvado acima do corpo, como se tentasse apontar para o céu, como se quisesse dizer: foi lá que eu tentei chegar. O brasileiro Maguila era a cara do Brasil maguila, o Brasil que se rendeu à beleza de Helena.  

 

Onde fica o banheiro das plantas?  

O pulmão, ou melhor, os pulmões são os órgãos do corpo humano onde acontece a hematose. A hematose é um processo químico de troca gasosa que ocorre nos alvéolos pulmonares e consiste na purificação do sangue venoso. O sangue venoso, ao passar pelos alvéolos, libera gás carbônico e recebe oxigênio, tornando-se sangue arterial.

Os pulmões, portanto, não produzem oxigênio! Na verdade, o que interessa aos pulmões é a purificação do sangue e, não, a purificação do ar. Os pulmões apenas tratam e purificam o sangue, transformando o sangue “ruim” em sangue “bom”.

Na floresta Amazônica há fotossíntese. As plantas captam energia solar, retiram gás carbônico do ambiente, combinam tudo com água e produzem substâncias orgânicas como açúcares, amidos e celuloses. Neste processo, LIBERAM oxigênio. Não há entrada de “oxigênio ruim” e saída de “oxigênio bom”. Há entrada de gás carbônico, luz do sol e água. Há saída de oxigênio.

Grosso modo, podemos dizer que o oxigênio é o cocô das plantas. O oxigênio é o que sobra no “processo digestivo” das plantas. Plantas vão ao banheiro para fazer oxigênio. Visto dessa forma, qual o órgão do corpo que, em sua função, assemelha-se à floresta amazônica?

(pausa)

Você usaria uma camiseta com o slogan “salvem o cocô do mundo?” Ou gritaria, em passeatas, algo do tipo “deixem-me cheirar o excremento das plantas” ou “preservem o intestino do mundo” ?

Acho que não.

Se a Amazônia não é pulmão e, muito menos, pulmão do mundo, por que e para que foi criado o maldito slogan “a Amazônia é o pulmão do mundo”?  

 

Beleza roubada (²) 

No ultimo século, o mundo perdeu metade de suas áreas inundáveis, responsáveis pela boa qualidade da água. A extração de madeira e a conversão em áreas agrícolas já consumiram metade das florestas mundiais. O desmatamento nos trópicos supera os 130 mil km2 anuais. Cerca de 9% das espécies de árvore estão ameaçadas de extinção. Aproximadamente 70% dos principais estoques pesqueiros marinhos são superexplorados ou estão no seu limite biológico. O ritmo de crescimento da pesca está 40% acima do que os oceanos podem sustentar.

Praticamente todas as terras, numa margem de 100 km das zonas costeiras, foram, de alguma forma, alteradas para uso agrícola ou urbano, produzindo impactos ambientais negativos. A degradação dos solos já afetou dois terços das terras agricultáveis, nos últimos 50 anos. Cerca de 30% das florestas originais do mundo foram transformadas em áreas agrícolas. Barragens, canais e desvios fragmentam quase 60% dos maiores rios mundiais. Cerca de 20% dos peixes de água doce estão extintos ou ameaçados. Em torno de 500 milhões de hectares de savanas, campos e florestas abertas da zona tropical e subtropical queimam todos os anos.

 

O mercado brasileiro de fitoterápicos movimenta 1 bilhão de dólares

Desde 1980, a economia global já triplicou e a população cresceu 30%, alcançando 6 bilhões de pessoas. Mais de 2,3 bilhões de pessoas convivem com a escassez de água potável. Das cerca de 250 mil espécies de plantas existentes hoje no mundo, 55 mil estão no Brasil. O país possui a mais extensa coleção de palmeiras (359 espécies) e de orquídeas (2,3 mil) e a maior variedade de vegetais com importância econômica mundial, como o abacaxi, o amendoim, a castanha-do-pará, a mandioca, o caju e a carnaúba.

Dez por cento de todos os anfíbios e mamíferos e 17% de todas as espécies de aves existentes hoje, no mundo, pertencem à fauna brasileira. O Brasil abriga a maior diversidade de primatas do planeta, com 55 espécies. O mercado brasileiro de fitoterápicos (ervas e produtos naturais) movimenta 1 bilhão de dólares. Existem cerca de 120 produtos de uso na medicina alopática, baseados em plantas brasileiras. O mercado de fármacos gera 350 bilhões de dólares no mundo e 11 bilhões de dólares no Brasil. 

 

Quem se deita, às escondidas, com Helena?  

Eu sempre digo, em minhas conversas, que não conheço uma guerra sequer, movida pela religião ou pelo nacionalismo. “Em nome de Deus” e “em nome da Pátria” são a explicação Cavalo de Tróia que esconde o presente grego “em nome do Dinheiro”. Religião e Pátria são o discurso fácil para as massas. O que move a máquina de guerra é o interesse econômico.

A preocupação com a saúde do planeta é uma farsa fundadora de um discurso ambíguo, voltado para as massas que se acham “politicamente corretas”. Por trás, ou por dentro, da preocupação com o oxigênio, está o interesse pela biodiversidade da Amazônia e sua importância estratégica na economia global. O maior tesouro da Amazônia não se chama oxigênio, mas potencial econômico. As tecnologias existentes, hoje, permitem-nos dizer que a biodiversidade é um “negócio” capaz de movimentar trilhões de dólares por ano.

 

Teoria da conspiração?

A frase “a Amazônia é o pulmão do mundo” é metaforicamente incorreta e politicamente mal intencionada. Seu propósito é criar uma comoção global em torno da saúde do planeta e formar uma massa crítica de opiniões, suficiente para legitimar qualquer ato de força – político, econômico ou militar – que em nome da salvação do pulmão do mundo, preserve o bolso do capitalismo imundo.

Quanto mais pessoas aceitarem a explicação “a Amazônia é o pulmão do mundo”, sem enxergar seu tendão de Aquiles, mais fácil se torna mobilizar a opinião pública mundial a favor das soluções de força. Teoria da conspiração? Talvez, mas eu aposto minha camisa-de-força contra as camisetas-vitrine dos ambientalistas testas-de-ferro.

Diferente da obra atribuída a Homero, a Ilíada tupiniquim não é uma guerra pela beleza de uma mulher. Os gregos de nosso tempo não cortejam a beleza de Helena, mas sua fortuna. Em nossa versão antropofágica, tampouco nos é permitido saber com quem Helena flerta. E em nossa cegueira macunaíma, esbarramos, todos os dias, num cavalo gigante, um Cavalo-bumbá.

Pobres de nós, bêbados troianos.

 

******************************************

(¹) A Amazônia Legal é formada por 792 municípios, que integram os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

(²) Dados e estatísticas transcritos do site www.amazonialegal.com.br

 

Anexo

_______________________________

TroiaHelena de Tróia 
 
O rapto de Helena, mulher que a mitologia grega descrevia como a mais bela de todas, desencadeou a lendária guerra de Tróia. Personagem da Ilíada (de Ílion, outro nome de Tróia), Helena era filha de Zeus e da mortal Leda, esposa de Tíndaro, rei de Esparta. Ainda menina, Helena foi raptada por Teseu. Libertada por seus irmãos Castor e Pólux, foi levada de volta para Esparta. 
 
Para evitar uma disputa entre os muitos pretendentes de Helena, Tíndaro fez com que todos jurassem respeitar a escolha da filha. Ela se casou, então, com Menelau, rei de Esparta. Contudo, Helena abandonou o marido e fugiu com Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. 
 
Os chefes gregos, solidários com Menelau, organizaram uma expedição punitiva contra Tróia que se transformou numa guerra de sete anos de duração, a famosa Guerra de Tróia. Após a morte de Páris, em combate, Helena casou-se com seu cunhado Deífobo. 
 
Um dos elementos decisivos para a queda de Tróia foi o não menos famoso Cavalo de Tróia. Os gregos simularam uma retirada e deixaram, às portas da cidade, um enorme cavalo de madeira, como um suposto presente aos deuses. Ardilosamente, contudo, haviam escondido um punhado de soldados no interior do cavalo. Depois que os troianos arrastaram o “presente de grego” para dentro da cidade, eles comemoraram, com festa e embriaguez, o fim da guerra. Neste momento, os soldados gregos saíram de dentro do cavalo e abriram as portas de Tróia para a invasão das tropas gregas. 
 
Após a queda de Tróia, Helena traiu Deífobo e retornou para Menelau. Voltaram para Esparta, onde viveram juntos até a morte.

 

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7 Comentários

[...] This post was mentioned on Twitter by jminduim, Renan Birck Pinheiro. Renan Birck Pinheiro said: RT @BuleVoador: Amazônia cobiçada http://is.gd/4RlWF [...]

Um adendo10 novembro 2009 às 00:49

Só pra completar que, além de tudo que você citou, a Amazônia não pode ser chamada de “pulmão do mundo” pelo simples fato de que consome todo o oxigênio que produz. O verdadeiro “pulmão do mundo” são as algas.

Pedro Paulo Netto> ATEISTA10 novembro 2009 às 10:11

Religião e Pátria são o discurso fácil para as massas. O que move a máquina de guerra é o interesse econômico.
E o que estes querem e que nos não exploremos os recursos que nos pertencem!
Querem que sejamos os mitológicos guardiões da floresta zelando pela fauna e flora aguardando o conquistador desenvolvido que ira nos liderar e fazer o que julga melhor para todos nos.
Esta Colonia de Exploração e uma enorme extensão habitada por governantes obtusos que se prostra diante do cenário internacional.
Cuidado, a marina quer governar!

Camilo Jr.10 novembro 2009 às 11:58

Marcelo,

Primeiramente, excelente texto!

Em segundo lugar, gostaria de parabenizá-lo também pela parte em que fala nada menos do que a verdade sobre nosso medíocre delírio de grandeza. A parte em que fala de Maguila, me fez pensar no comportamento ainda hoje perpetuado toda vez que a Seleção Brasileira ganha uma Copa. É “broxante” ver um país corroído pela ignorância, pela falta de educação de qualidade, pelos vícios que alimentam a corrupção política (como a venda de votos, tão comuns nos anos de eleição quanto missa em dia de domingo) etc., pulando, soltando foguetes, e gritando que somos “os melhores do mundo”!

Eu trocaria sem hesitar o ranking da FIFA pelo ranking do PISA (que avalia os países com melhor índice educacional do planeta, e em que a Finlândia é muito mais do pentacampeã). Mas, enfim… Como otimismo não é o meu forte, vamos comprar a camisetinha vagabunda de “Rumo ao HEXA!” para o ano que vem!

Mordredis10 novembro 2009 às 14:37

Quando o mundo diz que a Amazônia (¹) é o pulmão do mundo, ele quer dizer que a Amazônia produz o oxigênio do mundo.

Oo ?

Pulmão do mundo são as algas!

MDruyan11 novembro 2009 às 04:44

Camilo

Obrigado pelo comentário.

Apesar da importância do esporte e, em particular, do futebol no Brasil, eu também não hesitaria em derreter outra Jules Rimet para colocar o Brasil nas oitavas-de-final do campeonato do PISA!

Grande abaraço!

Marcelo Druyan

MDruyan11 novembro 2009 às 04:47

Mordredis, tudo bem?

Sim, as algas produzem oxigênio. Todavia, como o próprio texto aponta, elas não podem ser o pulmão do mundo, porque pulmão não produz oxigênio. :-)

Grande abraço!

Macelo Druyan